segunda-feira, 10 de maio de 2010



“Se a paixão fosse realmente um bálsamo, o mundo na pareceria tão equivocado...” (Renato Russo)

A paixão é combustível. É pele. Cheiro. É alta voltagem. É viciante. É mágica. É a melhor liga entre os corpos. O mais poderoso imã. A paixão é o frisson, o furor, a tensão, o tesão. É a perda do equilíbrio e do prumo. A paixão é real e surreal ao mesmo tempo.

Mas a paixão pode cegar, enganar. Ela precisa estar lado a lado com o discernimento, a prudência e o autocontrole. Pois acredito que às vezes conceituamos a paixão como sendo amor. E pior: um amor idealizado. E o narcisismo é a marca, por exemplo, de nossas tantas frustrações. Reflexo de nossas buscas ou de nós mesmos no outro. A paixão é carregada do desejo da satisfação no preenchimento das nossas lacunas, daquilo que nos falta.

Acho que também tudo é culpa do amor romântico e lúdico que é impregnado na nossa cultura. Nos filmes, novelas, canções. Nas nossas experiências vividas onde achamos que a intensidade de uma paixão é ou foi o amor. A subjetividade tomou conta das relações. Eu me apaixono por uma série de características subjetivas no outro. Pelas coisas que completam a Jaqueline que eu acho que estão no outro. E se, aos poucos, eu acho que elas não me satisfazem, não existe mais o “amor”. Tudo isso vale para a visão do outro em relação a mim.

Por não sabermos conceituar e perceber a paixão e todos seus impactos, passamos a não compreender da mesma forma a solidão. Pois ela se torna geralmente proporcional ao fracasso daquilo que a gente vislumbra com o “estar apaixonado”.


“Ainda encontro a fórmula do amor...” (Leoni e Léo Jaime)

Aqui nasce meu maior exercício ultimamente. A cura do meu coração a partir de uma nova forma de definir o amor.

O tal amor é essência, entrelinha, pano de fundo, enredo. O amor é exercício e muito suor. É luta. É diariamente. O amor pode até vir timidamente lado a lado com a paixão, mas será sempre o que resiste, o que persiste, o que passa a existir. O amor é visualizar a forte costura entre duas pessoas. É ir além das expectativas egoístas, dos limites e defeitos, meus e do outro. É ternura e candura. É amadurecimento dos diálogos e dos abraços. É o olhar poliglota capaz de ler e entender todas as falas do outro, até mesmo as mais silenciosas.

Amor é quando você percebe o quanto lhe custaria amar aquela pessoa se ali, dentro de ti, não existisse aquela força inexplicável que o faz amar e amar e amar. Cada vez mais. Amor não é grude, é presença. E se fazer presente nem sempre é algo físico. É não impor condição alguma. O amor é um morrer pelo outro. E sempre. Não de morte morrida. Mas sabendo ceder, perder, reconhecer, pelo o outro. O amor parece submisso, percebendo-o assim, mas é mais libertador que imaginamos.

O amor é fonte infinita. É um consumir-se num gesto contínuo de doação, sem se esgotar. Amor de pai e mãe, de irmãos... Na maioria das vezes é um amor que não se cansa. A gente cansa dos problemas, de ver quem amamos da nossa família errar, mas não nos cansamos de amá-los e vice e versa.

Pois pra mim o amor é eterno. O que acaba, por vezes, não é o amor. É a nossa disposição de amar que enfraquece. Nossa capacidade de frutificar o amor que se esvai. Muitas vezes nós é que entregamos os pontos. Desistimos do outro. Ou até de nós mesmos.

Paixão e Amor sempre estarão atrelados a conceitos. E conceitos se emaranham com valores, crenças, nossas experiências. Algo realmente pessoal. E é assim que eu vou dando nome aos meus bois. Ao que realmente é amor e o que é minha construção sobre ele. Separando minha confusão emocional e entendendo que todos nós, homens e mulheres, estamos aprendendo a interpretar e viver o mesmo amor. Isso quer dizer que minhas relações serão sempre baseadas ou amadurecidas de acordo com a fase de percepção de cada um - minha e do outro -, no momento em que passar a existir o encontro e a vontade de se trocar essas percepções.

Esse é o tal amor que eu ando restaurando dentro de mim. Encarando-o como um rio, lindo e límpido, onde eu navego e mergulho profundamente, sabendo que é preciso saber nadar, remar, criar artifícios para continuar nele.

Para seguir amando.
Sempre.

3 comentários:

Camilla disse...

Nine, como sempre vc está de parabéns!AMEI esse texto! =)

Ana Cau disse...

Nine! seu texto é lindíssimo, mas AMEI essa passagem aqui, ela traduz bem os encontros/desencontros da vida...
"Pois pra mim o amor é eterno. O que acaba, por vezes, não é o amor. É a nossa disposição de amar que enfraquece. Nossa capacidade de frutificar o amor que se esvai. Muitas vezes nós é que entregamos os pontos. Desistimos do outro. Ou até de nós mesmos"

Ana Cau disse...
Este comentário foi removido pelo autor.